Nolan é, sem sombra de dúvidas, um dos meus diretores favoritos. Interestelar, por exemplo, teve um grande impacto quando foi lançado pela forma magistral com que criou um épico encorpado, sustentado por um arranjo científico que passa pela teoria da relatividade, buracos negros e viagens pelo espaço profundo. Em A Odisseia, a expectativa não era pequena. Minha principal referência audiovisual da história é a série homônima de 1997, dirigida por Andrey Konchalovsky.
Houve um período, nos anos 2000, em que a obra de Konchalovsky era reexibida à exaustão no SBT. Vi A Odisseia incontáveis vezes e gostava muito da narrativa, dos efeitos visuais e do desfecho com a cena das flechas durante o jantar.
Por adaptar o texto clássico de Homero, o filme de Nolan segue o curso tradicional da história, porém com uma organização que lhe dá vida própria. Odisseu poderia até ser o narrador, mas o diretor opta por criar um quebra-cabeça que desvenda, aos poucos, os meandros dos acontecimentos. Cada personagem oferece uma perspectiva. Telêmaco, filho de Odisseu, busca notícias do pai. Enquanto isso, preso em uma ilha, o general que criou o cavalo de Troia tenta recuperar a memória. Penélope precisa lidar com os pretendentes e com a amargura de ver seu lar destruído dia após dia pelos visitantes.
Para o elenco, Nolan escalou nomes conhecidos que já haviam trabalhado com ele em outras obras, como Matt Damon e Anne Hathaway. Eles estiveram juntos em Interestelar. Outros atores mais jovens compõem o elenco, como Zendaya, Tom Holland e Robert Pattinson. À exceção de Tom Holland, conhecido por interpretar o Homem-Aranha, os demais entregam boas atuações. Mas nada se compara à força das cenas de John Leguizamo. Ele interpreta Eumeu, o velho amigo de Odisseu.
São mais de três horas de filme, o que se explica pela dimensão da história. Também contribui para essa duração a forma como Nolan conduz a montagem. As cenas são cadenciadas. Não há atropelos. Nas sequências de batalha, o diretor opta por impressionar mais pelo visual dos figurinos e pelas coreografias dos duelos do que por produzir uma sucessão infinita de pequenos takes. A música é bem característica dos filmes de Nolan. Ela está lá, ajuda a contar a história e funciona para ampliar o que já está na tela.
O tom épico e, de certa forma, grandiloquente da obra de Nolan aparece em diálogos que tratam de honra, fidelidade, fé e dignidade. Seus personagens, mesmo aqueles de moral questionável, são fortes e sempre têm um propósito que transcende a própria existência.
No IMDb, A Odisseia teve nota 8,5 de 10. No Metacritic, a média da imprensa especializada foi de 89 em 100. O New York Post afirmou que “quem melhor para adaptar um poema épico do que Nolan, um homem que descobre poesia em todos os seus épicos? Aqui, ele não pretendia usar mitos gregos como base para um filme de ação comum, como tantos fazem. Em vez disso, ele mergulha na psicologia e na moralidade espinhosa da situação de Odisseu”.
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