Xuxa, o documentário, e o que mais faltou dizer?

Xuxa o documentário - resenha, avaliação, crítica e sinopse

Xuxa foi um dos principais ativos das organizações Globo. Seus discos e produtos vendiam de forma avassaladora. O programa era líder absoluto de audiência. Quando vi recentemente uma chamada do documentário produzido pelo Globoplay sobre a vida dela, a pergunta óbvia era se haveria isenção o suficiente dos produtores para contar todas as histórias.

Leia também: For all mankind e a corrida especial que nunca terminou

Xuxa não é qualquer personagem. Uma geração inteira de crianças no Brasil cresceu assistindo ao seu programa matinal. Eram milhões de espectadores diariamente. Ela se relacionou com grandes personalidades do país como Pelé e Ayrton Senna. Um era o rei do futebol e outro tricampeão de Fórmula 1, respectivamente. Seus discos estiveram entre os mais vendidos durante vários anos. Quando decidiu ser mãe, ela foi na contramão da história da princesa que aguarda o cavaleiro de armadura e partiui para uma produção independente. Isso foi em meados dos ano 1990. Ela levou o seu programa para Argentina, Chile, Espanha e Estados Unidos. Xuxa ainda protagonizou um romance com o filho de John Kennedy e foi pedida em casamento por Michael Jackson.

A vida antes da fama não foi nenhum pouco fácil. Xuxa foi abusada na infância por um amigo da família. Tinha um pai militar que agredia bastante os irmãos.

Todos esses pontos são abordados em Xuxa, o documentário. A série é dirigida por Pedro Bial e tem roteiro de Camila Apel. São cinco episódios. O primeiro é dedicado ao início da carreira e o percurso que ela fez das passarelas, para a publicidade, a chegada na TV Manchete e depois a Globo. No segundo, o público conhece o estrelato que alcançou além do Brasil. O destaque aqui é a adoração do povo argentino por ela. No terceiro, Xuxa fala de tragédias que marcaram uma parte importante da sua vida como o relacionamento e morte de Ayrton Senna e o incêndiou no estúdio do Xuxa Park. No quarto, vemos o reencontro dela com a ex-diretora Marlene Matos. Por fim, a história do abuso que sofreu quando criança.

Xuxa e Pelé

O documentário coloca como se o relacionamento entre Xuxa e Pelé fosse uma “amizade colorida”. Pelé é apresentado como alguém que deu um empurrãozinho na carreira dela ao fazerem publicidade juntos. No entanto, fotos e reportagens em revistas da época mostram que eles tiveram um namoro sério. Também, devido à importância de Pelé, não se pode limitar o papel dele como um coadjuvante.

Xuxa e Senna

No documentário, Xuxa afirma que após a morte de Ayrton Senna, ela ficou de luto como se fosse uma viúva. Eles haviam namorado um tempo antes e formaram o casal de celebridades mais importante da época. Depois, sob a justificativa de problemas de agenda, eles se separaram. Adriane Galisteu, que era de fato com quem Senna tinha um relacionamento quando ele morreu, não é citada. Isso reflete até uma especulação de que havia na época de que a família de Senna não tinha muito apreço por Galisteu.

Xuxa, Marlene Matos e o racismo

Durante 19 anos, Marlene Matos foi a diretora do programa da Xuxa. Mais do que cuidar das atividades de TV, ela era também responsável por toda a vida profissional e pessoal da artista. Conforme o relato de Xuxa, ela e Ayrton Senna terminaram por pressão de Marlene. Xuxa também reclama de uma relação abusiva que envolvia, por exemplo, ela ser mantida trancada dentro do quarto durante as viagens.

Outra polêmica entre as duas é sobre as paquitas, as assistentes de palco de Xuxa. As garotas eram loiras e se vestiam com uma farda para fazer a coreografia das músicas e ajudá-la na apresentação do programa.

Já há algum tempo, Xuxa tem sido criticada por falta de diversidade e por não haver paquitas negras. No encontro que o documentário promove entre ambas, Xuxa reclama disso para Marlene que retruca dizendo que as paquitas eram daquele jeito porque deveriam ser iguais a ela.

Opinião sobre o Xuxa, o documentário

O documentário sobre Xuxa tem algo que eu gosto muito que são imagens antigas da televisão brasileira. A nostalgia em rever momentos, escutar músicas de outras épocas e entender o que ocorria em cada situação são coisas que me fascinam. Outro ponto importante é que dá para se ter uma dimensão do alcance que Xuxa obteve.

Entretanto, o documentário deixa a desejar em aspectos importantes como já mencionados como a relação com Pelé, a construção de uma história mágica com Senna e o debate sobre as questões raciais.

Penso que o documentário acertou bastante em tratar sobre a questão do filme Amor, Estranho Amor. Na obra, Xuxa interpreta uma personagem que tem uma relação sexual com um adolescente. Esse filme sempre foi uma pedra no sapato da apresentadora. Bial promoveu um encontro entre ela e o ator que interpretou o garoto na época. Eles conversam sobre a carreira de cada um, mas fica evidente que o percurso dele como artista foi interrompido porque ficou marcado como aquele que fez o polêmico filme com a Xuxa.

Nesse assunto, o documentário não mostrou que Xuxa e seus representantes fizeram uma cruzada contra a exibição desse filme. Ela chegou a acionar a justiça contra o Google para não ter o seu nome associado àquela obra. Por outro lado, o que o documentário mostra é a fala dela, como uma justificativa, de que o filme trata sobre a história de uma garota que é vendida a poderosos e que, por isso mesmo, deveria ser assistido por todos. Uma contradição com a maneira que agia antes.

Avaliação de Xuxa, o documentário

Em uma escala de 0 a 5, a minha nota para o filme é 3,5. É uma obra importante para a compreensão de uma personagem relevante na história da TV brasileira, mas tenho dúvidas se houve isenção suficiente para a abordagem plena do que foi o próprio fenômeno Xuxa.

No site Omelete, a nota foi 2. De acordo com a crítica, o documentário “o documentário parece adotar uma abordagem muito previsível de reatividade”.


Ouça o nosso podcast sobre Arte, Educação, Literatura e Comunicação

Cultura brasileira em imagens – acervo on line